Tema 11- Roteiro dos documentos
TEMA 11: A crise do regime escravista
NABUCO, Joaquim, O abolicionismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Capítulo 3 “O mandato da raça negra”, pp. 19-26.
Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife em 19 de agosto de 1849 e faleceu em Washington, em 17 de janeiro de 1910. Era filho do conselheiro Nabuco de Araújo, que foi sempre a maior influência em sua vida e cujo perfil traçou em Um Estadista do Império. Em 1859, foi confiado a José Herman de Tautphoeus (1810-1890), dono de um colégio em Friburgo. Estudou, depois, até 1865, no Colégio Pedro II, onde o Barão de Tautphoeus lecionava alemão. Seus primeiros versos, publicados aos 15 anos, receberam lisonjeira crítica de Machado de Assis. Seriam amigos por toda a vida. Com 16 anos, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi contemporâneo de Rui Barbosa, Rodrigues Alves, Castro Alves e Afonso Pena. Em 1868, transferiu-se para o Recife e ali se graduou, em 1870. Publicou, em 1872, o primeiro livro, Camões e Os Lusíadas. Teve uma breve passagem pela advocacia, no escritório do pai e pelo jornalismo. Fez artigos para A Reforma e para A Época (fundada com Machado de Assis e outros amigos), além de folhetins dominicais em O Globo. Foi adido em Washington e em Londres (1877). Com a volta dos liberais ao poder (1878), foi eleito deputado pela província de Pernambuco (também em 1885, 1886-1889). Sua atuação parlamentar logo se distinguiu pelas reformas liberais em matéria eleitoral (eleição direta, voto dos analfabetos), de terras (divisão dos latifúndios) e trabalho (abolição da escravidão, trabalho livre, contra a imigração chinesa). Fundou na casa paterna a Sociedade Brasileira contra a Escravidão (7 de setembro de 1880), assumiu-lhe a presidência e lançou um manifesto. Fundou também uma folha, O Abolicionista. Pedira demissão do seu cargo no Itamarati para poder agir livremente. Saldanha da Gama fora o companheiro constante da época de Londres. Ligou-se agora ao engenheiro negro André Rebouças, professor da Escola Politécnica. Fez uma curta excursão à Europa e por toda a parte recebeu encorajamento e homenagens.
Em 1885, fez uma série de opúsculos abolicionistas: Propaganda Liberal, O erro do Imperador, O Eclipse do abolicionismo, Eleições liberais, Eleições conservadoras, Escravos. Em 1886 e 1887 fez, como jornalista, duas viagens à Europa. Da primeira apresentou moção na conferência da Associação de Direito Internacional, em Londres; da segunda, recomendado pela Anti-Slavery Society e pelo cardeal Manning, foi recebido pelo papa Leão XIII, a quem pediu um ato pessoal em favor da libertação dos escravos. A promessa da encíclica, revelada em correspondência para O País, teve grande repercussão no Brasil.
Feita a abolição, o governo imperial ofereceu-lhe o título de visconde. Recusou, como o pai tinha recusado sempre qualquer honraria. Mas continuou fiel à monarquia e ao imperador. A apresentação do ministério Ouro Preto (11 de junho de 1889) foi seguida pela dissolução da Câmara. Nabuco aproveitou o interregno para realizar a viagem de núpcias ao Prata. Foi eleito, na volta, e chegou a agradecer sua escolha ao eleitorado do Recife. Mas, com a queda do império, afastou-se de qualquer atividade política. Partiu para Europa, reviu o soberano exilado e publicou, em linguagem elevada, o opúsculo Por que continuo a ser monarquista (1890).
PATROCÍNIO, José do. Campanha abolicionista – coletânea de artigos. Introdução de José Murilo de Carvalho. Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1996, pp. 179-186.
José Carlos do Patrocínio nasceu em Campos, no Rio de Janeiro, a 9 de outubro de 1853 e morreu na capital desta província a 30 de janeiro de 1905. Foi um dos principais líderes da campanha abolicionista. Era filho de uma escrava quitandeira, Justina Maria do Espírito Santo e do cônego José Carlos Monteiro, que não o perfilhou, mas criou-o em sua casa. O sobrenome Patrocínio proveio do fato de ter sido batizado a 8 de novembro, segundo domingo do mês, dia em que a Igreja Católica celebrava o patrocínio da Virgem Santíssima. Com 14 anos, José do Patrocínio foi para o Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar como aprendiz extranumerário na Santa Casa de Misericórdia. Dali passou a empregado de uma casa de saúde. Em 1868, iniciou seus estudos, fazendo preparatórios de farmácia e medicina, concluindo, em 1874, o curso de Farmácia da Faculdade de Medicina. Dedicou-se a dar aulas particulares, sendo acolhido na casa de um ex-colega, onde lecionou para os irmãos deste, com idades entre 5 e 16 anos. Enamorou-se de sua aluna mais velha, Maria Henriqueta, com quem se casaria a 15 de janeiro de 1881, desafiando o preconceito.
Em 1871 publicou em A República um longo poema, de inspiração condoreira, “Á memória de Tiradentes”, no qual proclamava convicções antimonárquicas e abolicionistas. Depois de editar com Demerval França, sob pseudônimo, Os Ferrões (1875), aparece como redator da Gazeta de Notícias, onde faz a seção “Semana política”. Em 1877, publica em folhetim o romance Motta Coqueiro ou a Pena de morte, baseado em uma história real, onde proclama a sua posição contrária à pena capital. Ao lado de Artur de Azevedo, Alberto de Oliveira e outros, participa da redação da revista O Besouro, de Rafael Bordalo Pinheiro. Torna-se conhecido, na capital, como jornalista e escritor. Seu apelido “Zé do Pato” está em todas as bocas.
Enviado pela Gazeta ao Ceará, em maio de 1878, para relatar os efeitos desastrosos da seca, o espetáculo da miséria das populações nordestinas deixa-o constrangido. Não somente escreveu uma série de artigos-reportagem, como aproveitou o tema para fazer um romance sobre a seca, Os retirantes (1879). Ao lado de Lopes Trovão fez discursos contra o chamado “imposto do vintém”, em dezembro de 1879, movimento que deu impulso à campanha republicana. Orador de grandes recursos, capaz de empolgar multidões, cada vez mais se destaca na luta pela abolição da escravatura. Empenhado em dispor de um jornal próprio, adquiriu, em agosto de 1881, a Gazeta da Tarde, que seria toda dedicada à campanha contra o regime servil. Em 1883, fez nova viagem ao Ceará, província que assumira a vanguarda do movimento abolicionista. No ano seguinte, publicou em folhetim o romance Pedro Espanhol.
Em novembro de 1884, apresentou-se como candidato a deputado, mas não conseguiu eleger-se. Finalmente, em 1886, elegeu-se vereador pelo Município Neutro. Sofreu um revés com o fracasso da Gazeta da Tarde, afetada pela saída de Alcindo Guanabara, que se pusera em um concorrente, o Novidades, de onde ataca o “abolicionismo vermelho”. José do Patrocínio lançou, então, a 28 de setembro de 1885, o jornal A cidade do Rio.
A libertação dos escravos, em 1888, foi uma vitória também dele. Entusiasticamente, fez elogio à regente Isabel e apoiou o Gabinete João Alfredo, comprometendo-se, assim, perante a opinião republicana. Embora sendo, como se dizia, “um proclamador civil da República”, José do Patrocínio foi visto com desconfiança pelo novo regime. Embarcou para a França em outubro de 1890, onde ficou por um ano e meio. Ao voltar, em 1892, trouxe o primeiro carro movido à gasolina que entrava no Brasil, com o que se consagrou pioneiro do automobilismo. No Rio, tomou partido dos militares rebelados contra Floriano Peixoto, tendo publicado em seu jornal, a proclamação dos almirantes que chefiavam a Revolta da Armada. Morreu em um domingo, enquanto escrevia um artigo em que saudava a Revolução Russa de 1905.
Escrito por Brasil Independente 2008 às 00h08
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